Estava a limpar os dedos ao guardanapo, com um pacote de aperitivos ainda aberto ao lado do portátil, quando dei de caras com uma proposta no LEGO Ideas que me fez sorrir antes de ter sequer uma opinião formada. Um chita de óculos de sol a olhar para mim do ecrã, ao lado do saco que eu tinha mesmo ali na mesa.
Foi l3rlck quem publicou Cheetos a 12 de outubro de 2026, e a 22 de outubro leva 977 apoios, nos primeiros degraus da caminhada até ao primeiro patamar dos 100. É cedo, portanto, mas o conceito é tão direto que vale a pena falar dele agora.
São 333 peças, pela estimativa do autor, divididas por duas coisas: o mascote Chester Cheetah em três dimensões, com a pelagem cor de laranja, as pintas pretas e os óculos de sol que o acompanham desde 1986, e o pacote de Cheetos recriado em peças ao lado dele. A ideia é uma montra de prateleira, o aperitivo e a cara que o vende, lado a lado.
Para quem nunca pôs a mão num saco destes (e em Portugal nem sempre os encontramos com facilidade), os Cheetos são um aperitivo de milho com sabor a queijo, lançado nos Estados Unidos em 1948 por Charles Elmer Doolin. O que o l3rlck quis homenagear foi o aperitivo preferido dele próprio, e isso nota-se no cuidado posto na postura descontraída do Chester.
Gosto do modelo e acho que este é exatamente o tipo de projeto que não chega aos 10.000 apoios, por uma razão que nada tem a ver com a qualidade da construção.
Deixem-me explicar.
Esculpir um chita de desenho animado a partir de peças de ângulo reto é das coisas mais difíceis que há no hobby, e a curvatura das costas e o focinho sorridente que se veem nas fotografias mostram mão de quem percebe do assunto. Isto é mérito do autor, puro e simples.
O problema é a licença. O Chester Cheetah e o pacote pertencem à Frito-Lay, que faz parte da PepsiCo, e a LEGO nunca fez um único produto com eles. O LEGO Ideas aprova marcas comerciais com uma parcimónia enorme, e quando aprova é quase sempre algo com apelo nostálgico amplo e um dono de licença disposto a sentar-se à mesa. Um aperitivo de milho, por mais carismático que seja o mascote, é um convite a uma negociação de marca que a LEGO raramente aceita começar.
Olhem, o LEGO Ideas já teve o Polaroid, já aprovou objetos do dia a dia, por isso a porta não está completamente fechada. Mas o Polaroid é um ícone de design cultural, não um saco de snacks com um animal de óculos escuros. São conversas de licenciamento de pesos diferentes.
Vão sentar-se com a PepsiCo por 333 peças a rondar os €30? Vale-lhes a pena o trabalho jurídico de uma marca alimentar para um set pequeno? E, mesmo que valha, quem é que o compra, para além dos fãs do Chester que também gostam de LEGO?
Não sei. Tenho a sensação de que este é um daqueles projetos que ganha muito carinho na página, chega talvez aos patamares intermédios, e acaba na gaveta da revisão por razões de licenciamento que os números públicos escondem. Posso estar enganado, e fico feliz em comer as minhas palavras (sem deixar os dedos cor de laranja) se a LEGO me surpreender.
Para já, o que fica é uma construção simpática e uma ideia que me arrancou um sorriso ao pequeno-almoço. E isso, honestamente, já é mais do que muitos projetos conseguem.
Cheetos
- Peças (estimativa do autor): 333
- Publicado: 12 de outubro de 2026
Apoiavam? Acham que a LEGO consegue (ou quer) fechar uma licença destas, ou o Chester fica-se pela página do Ideas? Digam-me nos comentários.
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